"Há uma alma em mim... Há uma calma que não condiz... Com a nossa pressa! Com resto que nos resta... Lamentavelmente eu sou assim... Um tanto disperso... Às vezes desapareço... Pois depois recomeço... Mas antes me esqueço..." (O Teatro Mágico)Às vezes, mergulhado a uma tranqüilidade agonizante, me sinto como uma folha que flutua sobre um mar agitado ou como um pássaro que plana num céu tempestuoso.
Em meio a tiros e gritos, eu caminho rumo à inerência. Rumo a um sossego indestrutivel.
Eu sigo as pedras sem ver o que deixo para trás. Todas as mortes, todas as lagrimas. Nada me trará de volta a realidade.
Alheio ao resto eu continuo preso em mim mesmo. Em meus pensamentos. Nada chega a mim. Nem mesmo a felicidade.
Eu me sinto leve, mas com pesos presos aos meus pés. Eu vejo a mim. Eu vejo a você.
- O que acontece com você? Está tão estranha, tão distante...
Eu sigo em minha cápsula sem entender o que vejo ao meu redor. Sem poder voltar. O que eles dizem? O que eles fazem? - Não importa! - diz a voz em minha mente.
E assim eu continuo, sempre em frente. Passam cidades, pessoas, lugares, dores, sofrimento e nada disso me afeta, nada me desarmoniza. Eu me protejo na tranqüilidade estonteante. –Isso ta errado! –
Eu caminho sobre a morte, sobre o sofrimento e nada disso toca minha face. Como? Eu flutuo sobre abismos intermináveis e me mantenho sobre águas revoltas. E isso não me abala. Por quê?
Como em uma bolha, eu sigo o vento. Sem destino ou direção, eu vago entre as famílias desesperadas, entre os corpos ao chão. As lagrimas não rolam meu rosto, elas estão tão presas quanto eu.
Eu vejo a desgraça atravessar meu caminho e não consigo desviar o olhar. Hipnotizado eu a sigo sem hesitar. Ela permanece majestosa sobre o pranto. E eu sinto o sofrimento que não é meu… a tranqüilidade inabalável, inatingível finalmente perde sua força pouco a pouco, me tornando vulnerável a toda dor, a todo o pranto. Os abismos em que passava antes sem sequer temer, agora se abrem em meus pés, me tragando para baixo. Puxado para a escuridão escuto sons inaudíveis antes de dentro de minha bolha. Gemidos, grunhidos, tiros e sofrimento.
Do fundo de um poço sem saída, sinto o calor em minha face. O vento em meus cabelos. O sol em minhas pálpebras. Abro meus olhos e vejo que a praça continuava a mesma, as pessoas continuavam a rir e conversar. Os pássaros cantavam na árvore acima de minha cabeça. De fato, aquela realidade não me pertencia, a dor, o pranto, a desgraça, as lagrimas. Nada daquilo parecia real ali, naquele jardim. E toda aquela tranqüilidade impenetrável de outrora não se passava da falta de consciência. De um sonho.
'Espero que gostem!
Comentem!
Obrigado,
Rodrigo.
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