O vento uivava nos vidros úmidos da biblioteca escurecida. A luz amarelada estava focalizada na mesa plana de mogno escuro envelhecido pelo tempo. Os dedos pálidos tremulavam enquanto a mão delicada e enrugada deslizava sobre o papel branco. As letras surgindo como desenhos meticulosamente traçados.
Os livros empoeirados jaziam nas prateleiras cuidadosamente organizadas. As lombadas coloridas eram as únicas testemunhas das noites em que Barbara permanecera naquela mesma poltrona castanha mergulhada em fantasias. Mas hoje ela estava ali para uma missão diferente. Não mais para passar os olhos prateados nos versos bem estruturados de um romance qualquer que repousasse sobre seu vestido acetinado. E sim, começar seu próprio romance. Estruturar seus próprios versos, contar sua própria historia.
Os óculos redondos que repousavam no nariz afilado auxiliavam sua visão cansada. A mente, tão cansada quanto, trabalhava lentamente enquanto sua mão forçava-se a continuar. Letra após letra. Frase após frase. As lembranças rodopiavam como a garoa fraca que rebatia na janela.
Os minutos se arrastavam junto com o ponteiro que se escondia na penumbra do cômodo. Sua respiração era tranqüila enquanto seus dedos trabalhavam em sincronia com sua mente. Às vezes, ela pausava a caneta apoiando-a em seu queixo pequeno enquanto seus olhos se perdiam em meio ao passado. Um sorriso. Uma lagrima. E ela continuava a escrever.
Após um suspiro cansado, as ultimas linhas chegavam ao seu final. Um sorriso satisfeito rasgava sua face. As palavras saíram firmes e certeiras de seus lábios rachados, enquanto ela se despedia em voz alta daquele que a manteve viva por toda uma vida.
”Eu ainda sinto seus olhos em minha nuca, mesmo você não estando mais presente. Ou talvez esteja. Esse sempre fora seu mistério. Sua presença. Seu olhar. Sua vigilância. Espero que aceite meu pedido para levar à outras pessoas essa historia. Essa proteção.
Com todo carinho de sua observada.
Barbara Kavangh.”
Suspirou contente enquanto desfazia o coque no alto de sua cabeça, e deixava os cachos dourados lhe caírem sobre os ombros. Os fios ainda úmidos do banho se misturando com os grisalhos que ela não lutara para esconder. O chá morno descendo por sua garganta enquanto ela sentia borbulhar de animação o corpo e a alma. O couro abraçando suas costas frágeis enquanto ela pontuava todos os momentos de sua vida até ali sob o olhar vigilante dele.








